Histórico
 06/05/2007 a 12/05/2007
 10/09/2006 a 16/09/2006
 03/09/2006 a 09/09/2006
 30/07/2006 a 05/08/2006
 30/04/2006 a 06/05/2006
 16/04/2006 a 22/04/2006
 19/03/2006 a 25/03/2006
 26/02/2006 a 04/03/2006
 19/02/2006 a 25/02/2006
 12/02/2006 a 18/02/2006


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 Sou aos pouquinhos...
 Caixa de Ressonância


Cafeína
 

FEIO

As pessoas passam por mim com passos largos, passos calmos, passos pesados ou leves, como os dos gatos que moram logo aqui ao lado e não me deixam em paz. Passam de cabeça baixa tentando de qualquer maneira me evitar. Atravessam a rua ao me ver no lado de fora, em frente ao portão, onde calmamente me aconchego sempre. São poucos os que não tem medo ou nojo de mim. Posso até contar em meus dedo sujos, saídos da minha perna sarnenta.

Concordo, aceito o fato. Sou feio. Muito. Ninguém teria o porque gostar de mim. Minha cara é medonha, com dentes tortos que saem da minha boca e me dão o aspecto de uma fera selvagem, de um javali quem sabe. Nos meus pelos as falhas são, de tão visíveis, mais minhas do que os próprios pelos. Os poucos que tenho são bagunçados, sempre para cima, ralos, mas ouriçados, e me fazem parecer um porco espinho.

Vivo na calçada, me alimentando da caridade dos que sentem pena da minha feiúra. Recebo um prato de comida aqui, umas sobras ali, bebo água da chuva, num potinho que fica perto da árvore, a céu aberto, para coletar as gotas que descem frias e rápidas, apressadas para chegar ao destino trágico e se esborracharem no chão como kamikazes.

Essas gotas acumuladas dentro da minha vasilha infelizmente não são o suficiente e, então bebo a água lamacenta das poças, no barro do terreno em construção ao lado. Antes de morar na calçada, em frente ao portão, eu vivia nessa construção. Era bom, tinha um teto para eu não me molhar com a chuva constante da cidade e eu podia ficar deitado no escuro sem ver o desprezo das pessoas.

Mas a construção, que se ergue a lentos milímetros, agora serve a outro propósito. Pelo mesmo fator que eu gostava dela, sua escuridão e silencioso isolamento, pessoas invadiram-na como antes eu tinha feito, e me expulsaram de lá. Agora, a construção é um reduto de drogados, entrando e saindo, deixando as marcas de suas alucinações, em seringas e pontas de cigarros espalhadas pelo chão.

O lugar fede a mijo e bosta. Os drogados cagam lá dentro, e não duvido que acabem por dormir em cima, quase que em simbiose.

Eu deito em minha calçada e espero. Espero por um prato de comida, por um pouco de água, um pouco de carinho, acima de tudo. O garoto da casa que moro em frente ao portão gosta de mim. Sempre vem falar comigo e me cumprimenta alegremente a cada entrada ou saída. Sinto realmente que gosta de mim. O amigo dele que mora aqui perto também gosta de mim. Os dois têm a sinceridade tão estampada nos gestos que é impossível não perceber.

Com os outros amigos do garoto tenho certo receio. Principalmente daquela garota que vem aqui sempre. Não sei o que é, mas não consigo relaxar perto dela. Já cheguei até a avançar nela. Nela e naquele outro de chapéu e guarda-chuva que me acordou.

Os passos me incomodam. Mas agora, o que mais me incomoda são os carros. Antigamente essa era uma rua calma, mas a modernidade assombrou esse pequeno bairro, e agora ele é visado, é famoso, abriga uma gigantesca arena que atrai muita gente, quartas e domingos. O asfalto me faz sentir falta da poeira do chão. Quando era de paralelepípedo, eu podia pelo menos fuçar a terra que os rodeava.

Agora minhas únicas atividades são, eventualmente correr atrás de alguns gatos sem nunca os alcançar e desviar dos carros que passam a toda a velocidade.

Então eu deito e espero. Espero por um prato de comida, por um pouco de água e um pouco de carinho, acima de tudo. Espero até o fim.



Escrito por Paulo G. Horn às 14h00
[] [envie esta mensagem]




[ ver mensagens anteriores ]