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Desafino

As cordas levemente palhetadas soaram desgovernadas. O violão estava desafinado. Lucas  apertou a quinta casa da primeira corda – a sexta, nas lições musicais – e a tocou em seqüência com a de baixo. Mizão e lá. Não era ali. Apertou a quinta casa do lá, e repetiu o processo, primeiro no próprio e depois no ré, logo abaixo. Foi assim também com o sol, o ré e o mizinho, a última de todas, da mais grossa à mais fina, de cima para baixo. Não conseguia achar, não sentia aonde estava o desafino. Tentou os acordes, os dedos da mão direita se ajustando com flexibilidade ao braço de madeira, ao longo das 12 casas. O indicador na quinta corda, primeira casa; o dedo médio na terceira corda, segunda casa e por fim, o anelar na segunda corda, terceira casa. O Dó decorado durantes as primeiras lições não soava como o velho e conhecido dó. Era medonho, era uma mistura de bemols e sustenidos, trastejando pelo corpo do velho Di Giorgi. O acorde, que deveria ser limpo e cristalino como uma canção do The Thrills, aparecia distorcido e desleixado como a voz de J Mascis do Dinosaur Jr.

            Lembrava muito sua antiga banda, os sons microfônicos saindo dos Marshalls empilhados no fundo dos palcos que pisaram nos quase quatro anos de atividade. Lucas tentava se distanciar disso, não queria ser um rockstar, um showman como Mick Jagger ou Angus Young. Buscava o folk de Vic Chessnutt e do bardo Iron & Wine, mas a cada nova composição aproximava-se do Unplugged in New York do Nirvana.

            Os momentos de ócio proporcionaram uma dúzia de pequenos shows violão-voz, permeados do sentimento de amor/ódio pelas próprias criações, pela voz dobrada nas letras raivosas e melodias amargas, pelo dedilhado no verso eu finjo dormir/ apenas para acordar e tomar/ uma dose de Jack Daniel´s no café, e pela busca melancólica do afinamento.

            Lucas botou o violão de lado e acendendo um cigarro retirado do maço de Lucky Strike acima do aparelho de vinil, revirou as gavetas de fitas demo que tinha jogadas, esquecidas naquele túmulo de madeira retangular com maçaneta. Acabou achando o afinador na terceira de cima para baixo, junto com os pôsteres que representavam o passado recente. O Pretérito imperfeito pela fala do agora amigo.

            Na televisão, nas rádios e estampado na capa dos semanários musicais, em destaque, negrito, itálico, caixa alta, estavam as declarações de Sam Lopez, nova promessa, novo garoto-prodígio das cordas. O Sprinklers é minha maior influência. Lucas Hallack é um gênio. A influência do garoto, o empurrão – mais um chute – para cima e Lucas estava lá, em flyers colados nos muros, com data, local e horário do lançamento do disco solo e participação especial de Sam. Gravado em quatro canais, em uma garagem, esquema lo-fi, quase caseiro. Letras pesadas sobre, drogas, solidão e autocrítica. Eu poderia ter sido um jardineiro/um centro-avante/um cavaleiro/ou um Cervantes/mas não fui.  Ganhou a crítica como Folk Punk

            Ligou o afinador e o colocou encostado no corpo do instrumento. Bateu as cordas em seqüência, do mizão ao mizinho novamente e fazendo o caminho inverso. A bolinha verde apareceu em todas as tentativas.

             Após o lançamento, Lucas garrara a estrada novamente. Nova turnê, velho alcoolismo, nova internação e velha depressão. Tratamento de drogas e produção de novo álbum. Apesar de algumas músicas mais alegres, Agulhas evidenciava que ali batia um coração triste. Segundo álbum, primeira tentativa de suicídio. Do alto de um penhasco, Lucas jogou-se secamente, como uma corda que arrebenta, mas ficou preso em uma árvore no caminho ao afinamento.

            O violão estava afinado, padrão profissional, tecnologia comprovando. Tocou um ré, depois um lá e um si menor sustenido, as notas ecoando pelas paredes da casa assaltando-lhe os ouvidos. Para ele, continuava desafinado. Apertou o sol, girando a tarracha impacientemente até o fim. A corda arrebentou na impaciência. 

            Da janela do carro, parado momentaneamente no portão da clínica, o jornalista arrancou com um gravador, a trilha sonora da situação. A voz fora do tom afirmava lentamente entre o cigarro, ridícula, realmente ridícula.



Escrito por Paulo G. Horn às 23h27
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Malditos limitadores de caracteres...



Escrito por Paulo G. Horn às 23h26
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JOEY             

 

 

 

                Joey morava há quatro anos em um quarto alugado na casa de uma velha, na esquina da Blumenau com a Lages. A casa, adornada com falhas na pintura, sem muro e com diversas plantas em um jardim semi-abandonado, abrigava ainda mais três jovens, todos com idade entre 18 e 23 anos. Joey tinha 23, e nem se chamava Joey mesmo. Por culpa do seu sobrenome, Ramone, os amigos começaram, como brincadeira, por pura implicância a associá-lo com uma das bandas precursoras do punk. Joey não gostava dos Ramones. Bradava de peito aberto que punk mesmo era o Iggy pop, o Sex Pistols, o Clash e o Dead Kennedys. Nada de três acordes e quatro jaquetas de couro. Preferia o Fuck Off dos pistols.

            Todas as noites, Ramone chegava meio bêbado na casa, e no processo de subir as escadas em direção ao pequeno quarto, atravessava o corredor passando em frente das portas fechadas e silenciosas dos quartos dos outros garotos. Vez em quando chegava muito bêbado na casa, e arrastava-se até o quarto se assim conseguia. Se não, dormia em qualquer lugar que caísse, fosse a escada, a mesa da cozinha da velha ou o jardim, encostado no velho tronco do Ipê, acordando coberto pelas flores que caíam formando um cobertor para ele, como se a árvore, tocada por um sentimento materno, encarnasse uma mãe que acorda durante a noite para checar se seu filho não está com frio e ajeita a coberta antes de voltar a se deitar.

            A velha, pequena e corcunda, os cabelos cinzentos presos em um coque e a vassoura em punho, ralhava com Joey cada vez que o achava dormindo em qualquer canto da casa. Chamava-o de imprestável e relaxado, de vagabundo e bêbado fedido. Ele apenas dava de ombros e, com uma cara mansa dizia com seu habitual tom de voz baixo: “ossos do ofício velha, ossos do ofício”. Joey trabalhara no bar do Chaplin por muito tempo. Vira coisas inacreditáveis lá, como o garoto que cagou no meio da rua, na frente do bar completamente lotado e a loirinha sentada na calçada, de pernas cruzadas apertando calmamente um baseado. Todo mundo o conhecia mas ele nunca lembrava de ninguém. Conhecia Os Legais, o Schnaps, Os Carademarte, os Ambulantes, mas não sabia o nome de nenhum deles. Chamava todos os membros das bandas pelo próprio nome da banda e isso gerava uma confusão grande, ainda mais estando todos bêbados.

            Quando o Chaplin já dava pesadamente seus últimos suspiros Joey foi chamado para assumir o bar do Cais 90.  No beco do Cais, antes dos shows ficava sentado na beirada do Cachoeira, bebendo qualquer coisa que conseguisse pegar do bar sem que fosse visto ou que causasse muito prejuízo. Quando as bandas começavam a tocar ele já estava travado e confundia pessoas, mas sempre acertava o pedido no bar. Quando a derrocada do Cais teve fim e o clube foi fechado, Joey ficou sem emprego. Achou um no Garagem, novamente no bar. Não gostava de trabalhar lá. Não suportava o hardcore meloso das noites lânguidas de sexta-feira e principalmente não suportava os Streight Edge. Dizia deles: “não bebem, não fumam e não fodem. Que eles fazem então, esses merda?” Arrumava confusão por se recusar a servir qualquer um com um circulo desenhado na mão e desenhava um “x” na sua só de sacanagem. Não durou muito no Garagem e só não saiu de lá numa ambulância por que alguns conhecidos das bandas que estavam tocando no seu último dia o protegeram dando guitarradas e baquetadas nos Streight Edge que vieram quebrar a cara dele.

Aquele dia Joey voltou muito bêbado para a casa da velha. Foi andando em direção à escada no canto direito da sala de entrada e esbarrou no sofá, caindo por cima dele. Apagou na hora. Dormia quando o gato preto da velha pulou em seu peito e acomodou-se, ronronando até o raiar do dia, como era de costume fazer. A velha, que toda manhã acordava às cinco horas para botar comida para o gato já sabia que, onde o encontrasse iria encontrar Joey. Já havia se resignado a aceitar o afeto do bichano pelo jovem, sem entender direito o que ele via no rapaz. Mas era certo que, sempre que o garoto estava na casa, o felino estava com ele, esfregando-se nas pernas do rapaz ou deitado ao seu lado enquanto ele fazia qualquer coisa. A velha amava o gato, que tinha pegado ainda filhote. Ela um dia voltava para a casa da igreja e o viu, pequenino tentando desesperadamente pular para dentro de uma lata de lixo na frente da Lanchonete Schimit, enlouquecido com o aroma dos restos de comida que empesteava o ar da João Colin. A velha o levou para casa, apaixonada pelo circulo branco no seu olho direito, única coisa que maculava o negrume de seu pelo.  Desde então, morava com a velha. A velha amava o gato mais do que tudo, certamente. O gato, no entanto amava mais Joey do que a velha. Desde o primeiro dia que o rapaz chegou bêbado na casa e caiu no chão da cozinha, perto do pote de água, que iniciou o fascínio do bicho por ele. Joey exalava um cheiro diferente do que o gato estava acostumado, mas que ao mesmo tempo era um cheiro conhecido por ele. O cheiro estava impregnado na pele dele e aconchegava o gato, que começou naquela noite a deitar-se sempre que possível em cima de Joey. Ficava ronronando deitado nele, até ele acordar e levantar. O amor do gato era a única coisa que a velha levava em conta para decidir a permanência de Joey na casa. Se não fosse isso, ele já estaria na rua há muito tempo. A velha estava cansada de acordar a noite com o barulho dele caindo na escada, na sala, na cozinha ou no jardim. Cansada de limpar o chão babado e as pegadas de barro e vômito que ele trazia para dentro da casa. E, acima de tudo, estava cansada do cheiro de lata de lixo de bar que ele tinha.

Joey, por sua vez, estava cansado demais para chegar até o quarto.

 



Escrito por Paulo G. Horn às 23h23
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o iníco

O que se escreve pra começar um blog?

Algo

Do nada do tudo de algo do nascer da morte do sol virei isso pelo que agora percorro o ar as telas as bocas e o branco sublime e penetrante daquilo que nem sei se é branco não posso mais ver ou vejo tudo uma visão tão ampla que é demais para que os 10% úteis do acinzentado que antes tinha percebessem e emitissem uma opinião é algo que também já não mais tenho nem pensamentos tenho espasmos leves momentos de escuridão onde brotam linhas efêmeras que nem linhas propriamente são curvas aclives e declives que me levam e bater e a cortar tudo pela frente e por trás e pelos dois ou quatro lados e apesar disso não tenho dor não tenho sangue nada de hemoglobina ou pigmentos ou tecidos rasgados poros abertos ou unhas encravadas não sei como é a sensação do nada do vazio ou do cheio demais não sei como esbarro e atravesso e corto e revolto revolvo e escuto e calo e falo e na verdade não tenho sons ou não os capto nem os sinto no lugar onde antes havia um braço.



Escrito por Paulo G. Horn às 23h47
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