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felinagens

Criei (ou não) vergonha na cara e publiquei essa história até o final
fica aí o registro
talvez ano que vem eu escreva mais


Escrito por Paulo G. Horn às 23h28
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Branco. Raiosflete os luminosos. Vazio. Juntação de todascores do Espectro de cores. Fantasmalvo? Vazio vazio.

Gatímido deitagora líquido como oceano cobrindestúdio. Oceano tíntico. Gatomar ronronante liqueitado em minhas pernas. Milomão-cabeça-tronco-rabo mão-cabeça-troco-rabo. Vai e volta. Ronronante. A canetinta abandonada acimalto de algumas folhesboços nãoproveitadas rolarola cada vez que mão-cabeça-tronco-rabo bate na pranchetamiga. Rola rola cainochão.
Gatímido pulassustado abridos olhos. Tapetum lucidum tapetum tum. Visão do branco é ruim pros gatos. Tapetum lucidum lucidum dum. O pretoquim negrumelhante. Escuro. Gatorabotufadonanquim. Nãoquim mais. Brancoberto.

Branco. Alvozio. Almorto. Muito claro. Ausência de cor em pigmentores.

As folhas não são mais folhofás. Pego a canetinta e o nanquim que antes virava gatorabotufadonanquim é só mais um riscorabisco qualquer. Direita esquerda vai e vem da esquerda pra direita a tinta preenchendo o branco. Mas nãoquim aparece um gato. Branco branco branco nada. Só um borrão.
Traço puro riscorabiscado nas bancas. Gatopáginas e mais gatopáginas. Todo mundo lendo gatorabotufadonanquim. Preturo. Negrumelhante história. Me deu um prêmio. Me tirou um gato. Um de rabotufadonanquim.

Leo liga. Vais à convenção reveber o prêmio? Me avise para eu fazer a reserva do hotel. A secreletrônica repetepeterepete a mensagem do editor. A voz rugira fica ruída pelo sometálico ga gravação.
Eu ligo. Meu caro, eu não vou nem à minha sala de estar. Não gosto desse clima de gênio que gira nestas convenções. Sou um desenhista. Escritor talvez. Não gosto de ser gênio. Não acho que sou. Tenho meus problemas com esta revista. Ir seria como enterrar um amigo. Falei após o Biiiiiip!

Não não não não não. Riscorabisco e nada de rabotufadonanquim. Gatímido continua líquido no estúdio. Faz parte da decoração quase. Pego a folhesboço e numa bolinha de raiva à jogo pra traz. Gatímido pularmado e paff! paff! paff! Poucos paralelos sacudindo as pranchetas e nanquins.
Seguro uma canetinta nova em minha mão. Será que existem gatos vermelhos?

Escrito por Paulo G. Horn às 23h21
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Olhos. Rabotufadonanquim agora é sólhos. Nuncantes rabotufado deixararecer os olhos. Agora cada riscorabisco da canetinta desdo começo desnegrumelha o gato. Negrumelhante só o voltorno. Mas não nas folhesboços. Desnegrumelhança de rabotufadonanquim sónde a folhofá me agrada e arterminaliza.
Tú és negro e dará tua negrumelhança. Pretencherá as folhesboços prautor contesenhar a história.
Dizenha a canetinta riscorabiscando mais uma folhofá arteminalizada. Dizenha com autoridade de pretossuidora. Rabotufadonanquim líquido na folhofá vai evaporacinzentando. Riscacinzenta rabiscocinzenta. Pretolhos pretolhos. Rabotufadonanquim vai sendo cinzumido.
Gatímido cresgrandece. Bem líquido agora. Quandantes gatímido adentroava esquivestúdio e ficava fascinado com uma folhesboço amabandonada não imaginava que gatímido liquefaria tão depressa. Apoiado líquedo comabeça na perna da pranchetamiga gatímido é alheiagora às folhesboços que chuvaem ao chão enquanto eu ricorabisco e rabotufadonanquim vai cinzumindo.
Tú és negro e perdesenhará tua negrumelhança. Cinzabstrair-se-á da nancuridão prautor riscabar a história.
Tristecinza tristecinza tristecinza. Remiscinzência desagradável. Esfumacinzentando. Dizenha a canetinta esfaquecinzentando rabotufadonanquim.Tristecinza cinzozinho.

Escrito por Paulo G. Horn às 23h21
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Mileixou a cadeira. As milhares de folhesboços cobriam a pranchetamiga e cachoeiravam em direção ao chão, tapetado por folhesboços rebandonadas. Passpissavam o carpetintado. Tintescuidado. Icautinta. A portentrata do estúdio cresgrandecia à aproximidade. O cemitézeiro cheio de bitucadáveres logestanciava-se. Misegurou a mãoçaneta medotante.Gitorceu e milouviu creeeek. Milependência.

A salestar jé um estranlugar para mim, parece habitado por certosmônios que não gostam de sererrompidos mas que mesmo assim gostariam da minhesença junto à deles. Elusam selos e moediferentes, faloutra língua. E eu não vou lá porque certamenstaria de estar presente muitais com eles.

Gatímiava. Miloau, miloau. Milosou rápido pelorredor maluminado de paredescacando. Tintanquim? Não, não, verniz. Aproximedou-se da comidozinha inutitempolizada, passando cego por recortângulos quiam do chão àquase o tetonde deveriam existir porportastas. Mãovimentos rápidos percorriam gavetas, facolheres, copáguas, pratopanos e apenas pratos. Abre fecha abre abre. Gaveixotes eram esquecidos entreabertos. Onde está, ondestá?
Na beirada da estante, juto ao potescoitos, milegou a caixalitos de fogósforos. Correu pelorredor baixolhando pra frente, fugiscapando dos recortângulos sem portastas e das paredescascando. Portentrou o estúdio acompanheirado pelo gatímido e recosentou na cadeira. Fogocendeu um cigarro e retomou so desenhos, afastando as folhesboços para dar espaço à uma nova folhofá. Risocrabisco, rico rabisco.

Idéialustradas começaram a vazar, a rumar num fluxo contínuo do bicodepena para a folhofá, nanquinchendo, transfiguformando folhesboços prontos, belimagens psicoderreais, mais e mais aos olhos de rabotufadonanquim. Longe do fundemônio da salestar, desenhidéias tão complexas vidanham, desenhidéias que se tornam auto-conscientes. Rabotufadonanquim líquido vaicinzentando pouco a pouco.

Escrito por Paulo G. Horn às 23h19
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Milo deitou-sexausto sobre suas milhares de folhesboços. Riscorabiscos se aconchegavam nos braços cansados de quem passou a noite e o dia e a tarde toda riscorabiscando. O perpétuo sono se estendeu como coberta ao artiasta cansado. Folhofá, folhofá minha, me diga quem é sua rainha? És tu ó preciosa tintanquim, que com seu negrumelhante conduz os olhos através da pouição alva prismolorida da convergência verdermelho laranjarelo ciazuleta.
O gatorabotufadonanquim panterandava, lado proutro. Está atrasado, está atrasado, acorde! Já são dez prasmuito! Panterandando, panterorrendo, pantarroando. Quem tem medo do gatomau, gatomau, gatomau, quem tem medo do gatomau...
Milocordou deitado sobre o borrachomelo. Com os olhos ainda embasbaçados olhou dum lado proutro. Viu rabotufadonanquim-de-botas no tobo de uma bicodepenárvore panterambulando. Tentou levantar-serguer mas notou que estava preso. Diversos traçolinhas prendiam-o ao borrachomelo. O rabotufadonanquim-de-botas tirou do bolso um tinteirológio. Está atrasado demias Milo, muito atrasado. E a cartainha de copas não gosta de ser embaralhada.
Tentava milevantar mas continuava prelinhado ao coguracha. Pontos e mais pontos, gotintas e mais gotintas subiam em seu corpo. Lillipontianos! o povo de Lillipontafina prendera o gigantesenhista!
Rabotufado-de-botas panterrou para o chão perto do borrachomelo e, num instantera cortou com as garrunhas os tralinhas, borrando Lillipontianos pela roupa de Milomarrado.
Corra corra Milo, você está atrasado! Aí vem a cartainha! Milopé correu e correu, virando esquinetas e curvovos. Chegou a três aportadores, cada um de tamanhos diferentes. Lambeu o pórpura Lillipontiano sangrado em sua roupa e diminutou ao tamanho de um grãofite. Papelou pelo aportador menor. Peguem o desemonhisita! peguem o desemonhista e cortem sua cabeça! Os gritorturantes da cartainha de copas assovoavam longe.
Milodeu de cara com o rabotufadonanquim-de-botas, panterândo pela salâmina central do aportador. Li certa vez que buscando resposta sobre o porque homens haviam matado seus filhotes, uma gata conversou com so senhor dos sonhos. Homens pequeninos sonharam o mesmo sonho e acabaram com uma era onde os gatos eram os senhores. A gata, se dedica até hoje fazer com que os gatos voltem a sonhar com uma era onde gatos possam reinar tranquilos.
Milocordou exausto sobre suas milhares de folhesboços. rabotufadonanquim-sem-botas olhava-o líquido do canto da folha.
Corra Milo, corra! Você está atrasado!

Escrito por Paulo G. Horn às 23h19
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Minha mãe disse que o primeiro que eu fiz foi aos 4 anos.
Giz giz vermelho amarelo marrom azul risca risca qualquer lado risca mais cima baixo suco laranja risca risca mancha terminei. Desenhei um monstro. Todo torto olhoabelha antena espadamão salvador tóquio heróidomundo. Nada de gato.
Aos 9 minha primeira história.
Lápisdecor vermelho risca risca azul por fora risca rabisca e risca pega preto chifre risca esconde cara atras capa risca risca quebra ponta joga fora pega azul cima baixo vai volta lados acabei. Jornalista alado se encontava com morcegoplayboy no ceu terra mar de Gothópolis juntequipe ganha bem prende bandido. Passarodrácula e nada de gato.
Mais de uma pagina pela primeira vez aos 12.
Lápisdecor aquarelado risca risca amarelo listrapreta garraosso rasga pescoço jorra púrpura pega pincel molha agua passa passa borra tudo azul caolho raio vermelholaser cabeça capacete cai chão mata inimigo sai machucado salva o mundo. Carcajúmolho sangra sem nenhum gato perto.
10 páginas de nãosuperheróis ao 16 primeira tentativa.
6B lápisdesenho risca risca aparece Basset risca cahorro meu cai marrom grogue caixotegigante azul d´água giratorce esperneia morre manchaborra cinza na minha mão. Cãofogado gato ri mas não aparece.
Primeira história publicada aos 22 50 páginas.
Tarço firme garotoxonado linha reta tesoura creek creek risco corta rasisco cabelo vira pretonanquim pêlos encobrem chão branco tesoura garota penabunda garoto louco igreja bíblia no braço abandona bateria vira pastorfanático. R$ 4,50 em qualquer banca sem gato.
Históriatual três meses atrasada.
Rabotufadonanquim no topo da folhofá 30 páginas feitas riscariscarisca frenético risca mais metade rabiscar mandar até quinta capítulo um 20 páginas.

Sabia que minha mãe não tem nenhuma das minhas histórias rabotufdonanquim? Uma vez dei à ela a segunda ou terceira que foi publicada entreguei na mão dela e ela botou na mesa da sala dizendo que não ia ler porque já tinha o desenho do olhoabelha que era o único que ela realmente queria. Um desenho todo tordo salvadordomundo quatridade era importante pra ela. Disse que aquele era um traço puro. Pode isso gatímido? O traço puro o único traço puro que eu já fiz na vida está três meses esperando a banca.
O tom puro gatímido tufadonanquim o tom puro é o rabotufadonanquim líquido no canto superior da folhofá.


HIstóriatual três meses atrasada.
Direita esquerda vai e vem da esquerda pra direita e novamente pra direita com a parte apoiada mesmo borrando a tinta preenchido branco pelo negro espalhado pela folha e pela pele no meio da altivez.

Escrito por Paulo G. Horn às 23h18
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GATO 4

Li um gatopreto voltava vermelho toda noite cortado ferido rasgado brigava num bosque pantera contra diabodouro miava arrastado corpo vazando púrpura até outra noiteluta. Li também gatopreto sumido quieto silênciotúmulo mia mia mia preso em salarcófado junto cadáver entrega assassino.

Começo coexistir gatorabotufado.
Deitado líquido no topo da folhofá o tempo todo rabotufado não tomou traço linha sombra o preto automático tornou-se preto como gatorabotufatonanquim.
Rabotufadonanquim permaneuceu cauda levantada no topo da folhofá os desenhos inteiros. Quando pegava nova brancura primeiro traço rabotufadonanquim passava girava caia líquido espalhado pela folhofá levantava para o topo deitado com cauda balançando direita esquerda direita esquerda vai e vem vai vai preto preenchendo borrando altivo preto volume formas
Gatotímidofilhote deitado aos pés também desenhos inteiros. Certo ponto pulou fincou garrasunhas escalou perna colo subiu mesa e espalhou líquido. Não líquido rabotufadonanquim que velhapoça mas já estado de liquefação. Líquido tímidofilhoteliquefação via folhofá vai e vem mãonanquim e olho fechava Tapetum Lucidum.

Li vez Tapetum Lucidum membrana dentro globocular reestimula retina ao refeltirluz cavidade melhora a visão noturna escuro negro.


Escrito por Paulo G. Horn às 23h16
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GATO 3

Caro Milo,

você me disse uma vez que o “desígnio era a atitude do desenhista em relação à realidade”. Pois bem. Então eu te pergunto: qual será o seu desígnio? Por que a realidade, rapaz, é que os seus prazos já estão bem estourados. Tenho sido paciente com sua insistência em achar o Tom Puro nos seus rabiscos, mas preciso que me mostre resultados. Sei que não mandará nenhum esboço. “Não são uma opção ao Tom Puro”, se não me engano. Mesmo assim, Milo espero um desígnio rápido de sua parte. Não se esqueça que ainda sou seu editor.
Por enquanto, ainda aguardando
Leo Spelaea,

o movimento automático mão sobre papel através do branco preto preto preto risca risca até chegar um preto que diga algo oi eu sou isso.
Esse é o Tom Puro. Ele não é um desígnio, não é uma atitude, ele é um instinto. Do mesmo modo que o gato gira o corpo pra cair em pé a mão segura o nanquim e percorre a página, usando-o para evidenciar volumes sombras e formas. A linha praticamente desaparece.

Linha linha linha reto reto reto o que é a linha? menor distancia entre dois pontos. Traço reto torto curvo vai e volta e vira sofá

A linha desaparece por que o gato é mais rápido. Quando eu estou traçando ainda ele passa toda a linha e cai. Em pé. Gira o corpo e cai no branco e toma conta e adeus traço. O gatorabotufado deita líquido, espalhado pela folhofá


Caro Leo,
O nome da história é Tapetum Lucidum. E é tudo que tenho pra você agora
Atenciosamente,

Milo.

Escrito por Paulo G. Horn às 23h10
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continuação do gato

O Gato - 2 

Datas não são importantes. O dia de hoje também não. Todos os dias são o dia do gato. O dia que ele não aparecer, felino como ele só, eu posso desenhar os numerosinhos no topo da página.

Desenhar. Até nos desenhos ele anda aparecendo. Ele não anda, ele se impõe. Passo por passo, como uma pantera, rouba o nanquim das minhas criações e vai ficando cada vez mais negro, cada vez mais nítido.

Ele rouba sombras. Se funde à elas, se alimenta delas, é ela. Ao sol quando eu caminho, ele me segue. Não. Ao sol, quando eu caminho, eu fujo dele.

Ao branco, ele me perturba. Ao traço, ele me induz. Ao traço no branco, ele está por vir. E quando vem, o branco é pisado de preto. Pisado e repisado, em circulos até o preto se esparramar pela folha, deixando pouco do que era. O branco é um sofá.

Ao branco, para com medo de traçar. Mas sempre traço. Por que o traço, é sempre mais forte. O traço é, de um jeito ou de outro, o gato.


MILO,

dia do gato, escrevendo com nanquim



Escrito por Paulo G. Horn às 19h31
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o gato

Apesar da ausência de posts (e de visitantes), vou começar agora a postar uma série de nove pequenas partes que formam um conto de nome singelo. "o gato".

O Gato 

Direita esquerda vai e vem da esquerda pra direita e novamente pra direita com a parte de apoio apoiada mesmo borrando a tinta branco preenchido pelo negro espalhado pela folha e pela pele bem no meio da altivez.

Era um gato. Milo olhava para a folha rabiscada e via um gato. Um gato esguio de rabo tufado. Amassou a folha e jogou para trás, sem ter a mínima intenção de acertar o lixeiro. O gato, tímido e esquivo, entrou no estúdio e, como todo bom filhote, ficou fascinado com a bolinha de papel abandonada no chão.

Esquerda direita vem e vai da direita pra esquerda e de novo! pra esquerda unhas e garras ou unhasgarras pra esquerda? E paff! Paff! Paff! Pula pula perto gira roda branco abrindo abrindo o preto vermelho?

Milo segurava o nanquim, com a ponta pressionada numa folha clone da anterior, antes das passadas do gato esguio na brancura. Alheio à briga dos felinos, pensava se mudar de cor poderia ser uma alternativa. Ou será que também existiriam gatos vermelhos?

 



Escrito por Paulo G. Horn às 19h09
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Altamente influênciado por Alan Moore

 AREIA

Caída em meio às dunas, não pertence. Não seria ali que a procurariam. A vastidão de grãos, ásperos e secos. Um tronco. Um banco. Pernas não sustentam. Na areia, um círculo se desenha facilmente. Dentro de um triângulo. Palavras. Palavras. Erroneamente ditas. Vento apaga. Lembranças esvaem. Faz tanto tempo. Grãos que correm, grão que caem. Uma ampulheta. O vento canta. Uma antiga de ninar? Faz tanto tempo. Um círculo novamente. Dentro um triângulo. Palavras. Palavras. Erroneamente ditas, mas que resultam. Criam. Um erro aparece hominídeo. Me ajude a voltar. Uma ampulheta. Sorri.

Aparecido em frente à dama, sorria involuntariamente. Não tinha sido chamado mas ouvira a súplica. Isso não o impedia. Isso o compelia, na verdade. Na mentira. Não brinque comigo. Tão simples. Tão fácil. Tão divertido. Me leve de volta. Aqui estamos. Um círculo. Umas palavras. Por que não falou o certo? Por quê? Por quê? Uma ampulheta. Círculo que some. Grãos que acabam. Sorriso que aumenta.

Voando num impulso, tomava o que queria. Uma garganta era um cálice. Possibilitava o retorno. Voltar a não existir. Aos poucos. Não era isso. Uma ampulheta. Não grãos. Nem palavras. Resultam em cachoeira. Descendo rio púrpura. Jorrando vida. Vai. Por quê? Endurecendo. Escurecendo. Rubro alimento. Palavras. Palavras. Únicas. Nunca. Não invoque um demônio sem saber seu nome. Ele sorri. Triângulo. Túmulo. Círculo. Vento e areia. Ele sorri.



Escrito por Paulo G. Horn às 21h45
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Altamente influenciado por Neil Gaiman...

 

Ferre



Do alto, uma cruz ao longe, bem no centro de um grande nada. Capins queimados e restos de madeira-lenha acompanhavam à margem, a extensão das linhas que se cruzavam. Uma vertical. Outra horizontal. Reto toda vida. Há muito tempo um raio de luz passara, roubando com sua cauda um pedaço de céu. Chovia penas brancas-sangue. Cada vez mais perto do chão. Do céu rubro, as estrelas já não brilhavam como antes. Um buraco no chão. Sempre fumegante.

    • Pai, o que são as estrelas?

    • São anjos, querido.

    • E as estrelas do mar?

    • Fique longe das estrelas do mar. Agora venha,vamos brincar na areia.

    • Quero fazer um castelo que ultrapasse as estrelas pai...


De baixo, um céu azul, bem ao nada de um grande centro. Nuvens azuis-cinzentadas e pontos-pedaços de luz cobriam o eterno rubro acima. Extensão de trinta e sete. Para cima. Para os lados. Não em metros ou quilômetros. Em falta de criaturas viventes. As penas brancas-sangue flutuavam feito folhas de outono, pesando púrpuras e esquivando-se do buraco fumegante. Rodopiavam pelo rubro até atingirem um dos últimos eventos, queimando-se no incessante fogo da cruz de terra.


    • Pai, o que é a luz?

    • Um erro, meu filho.

    • Mas se ela brilha também?

    • Também meu filho.

    • Eu sinto que vou brilhar, mais do que qualquer um. Que serei luz.

    • Infelizmente vai...


De dentro, cavidade fumegante brilhava intensamente ao raiar do dia. Um luminoso filho da manhã. As estrelas morriam um pouco à noite. Uma remiscência de uma transgressão. Vênus, nunca mais foi vista ao céu, ao sair do dia. Um afastamento pelo sol. O ar não venta sobre buraco. Não venta sobre nenhuma parte da cruz mas mesmo assim as penas brancas -sangue revoam. O ar não se move livremente em meio a terra. Um buraco é um impacto. Um clarão estrondoso.


Um buraco no chão. Sempre fumegante. De manhã, antes do sol, brilha lá ao fundo. Bem no meio da encruzilhada. Lá no fim, sem penas. Há muito tempo um raio de luz passara, roubando com sua cauda um pedaço de céu. Caiu. O buraco de um impacto. Lá dentro, um luminoso filho da manhã. Lá dentro, o portador da luz. Lúcifer, estrela da manhã.



Escrito por Paulo G. Horn às 20h04
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Aquela expectativa vai e vem e volta para assombrar os pensamentos mas sempre vem com um sorriso de lembrança pela minha e a tua ignorância da idade tenra terra vermelha barro grudado na sola sujando ao passo que com passos passamos por mais um ano sem notícias minhas e suas e nossas que já não existe mais esse nós que um dia existiu pelo menos no pulsar e na corrente e na cabeça nos olhos de um para o outro recíproco e reprimido pelos outros e por nós mesmos mas se esse nós não existiu para os outros e sim para nós cada um lidando com isso ao seu modo e se quando foi pra existir o nós eu disse não não foi por não querer mas por outros não quererem o que nós dois queríamos sem admitir.

E hoje eu achei no meio de minhas coisas antigas de colégio uma foto da turma e lá está você com seu cabelo alaranjado me olhando com os olhos verdes e um sorriso no rosto enquanto eu estou alheio à sua atenção e agora penso como você esteve sempre perto naqueles dias mas eu não notei e agora vejo os vasos de cerâmica tortos no parapeito da janela com uma flor meio murcha que me lembra de você de seu rosto a expressão tristonha sentada com as mão nos joelhos no pilar que abriga o mastro da bandeira e você encostada nele cabisbaixa e eu passando correndo chutando uma lata amassada de coca-cola pelo pátio.

Te vi essa semana no almoço, você sentada de blusa regata preta com seu pai e sua mãe e só então percebi que mesmo com toda nossa história fictícia ao longo dos anos eu nunca os tinha conhecido e o contraste de vocês três é absurdo os dois são velhos com aspecto de agricultores ou não sei bem talvez sua mãe fosse professora primária de escola pública e seu pai contador ele parece um contador com a camiseta de gola pólo abotoada até o pescoço no calor da rua porque dentro do restaurante o ar condicionado nos engana e você a garota que estudou e fala francês e lê livros sobre a etimologia sexual das neuroses e a lógica do inconsciente esporadicamente tenta puxar papo e faz algum comentário mas vocês três continuam a maior parte do tempo comendo em silêncio com as cabeças baixas há duas mesas da minha enquanto eu e meu pai bebendo uma cerveja bem gelada esperamos a fila do buffet ficar menor para nos servirmos de pedaçoes de carne mal passada e talvez um pouco de arroz feijão algumas alfaces e tomates tão vermelhos quanto o sangue escorrendo pelo boi morto no prato do seu pai.

Fico imaginando se um dia nós sentassemos para tomar um café ou uma cerveja ou um café irlandês se iríamos ficar nostálgicos relembrando os momentos que poderíamos ter aproveitado realmente juntos e não apenas juntos como aproveitamos ou se passaráamos o tempo discutindo coisas novas e talvez inventadas no momento e eu falaria sobre a sinceridade das palavras e você diria que palavras não são sinceras são poços de subconsciência com intencionalidade e eu diria que não que as palavras em seu estágio primitivo são desprovidas de elementos manipulativos e que quando contextualizadas pelo homem é que elas adquirem a intencionalidade e manipulam a mensagem e você diria que eu estava manipulando a mensagem pensando cada palavra para encaixá-la na sentença como se estivesse montando um quebra cabeça com o desenho dos seus olhos dos quais eu não conseguiria desgrudar os meus e a verdidão que seria o caminho entre os teus e os meus olhos seria como um pequeno canteiro de um mundo que pouco aproveitado transladava em torno de nós dois criando um campo que nos atraia um para o outro e cada vez chegaráamos mais perto e mais e mais e mais e juntos primeiro os dedos que estavam na xícara ou no copo e logo as mãos puxando para fora do café e puxando um para o outro colados corpo a corpo e mãos percorendo cabelos braços rostos e lábios encontrando finalmente lábios enpurrando e puxando para si e para sós entrelaçados entregarmo-nos um ao outro.

Talvez acordaríamos lado a lado percorrendo com os olhos as curvas dos corpos e do cadenciamento do peito respirando inspira expira inspira expira cima baixo lentamente sem preocupações porque se preocupar se isso teria sido apenas o que já deveria muito antes ter acontecido por um caminho menos abrupto mas que não seria abrupto esse caminho que faríamos do café até um ao outro seria apenas um caminho mais longo de anos que não deveríamos ter desperdiçado separados e sim desperdiçado deitados como seria agora nus lado a lado relembrando com os olhos o contorno que teríamos feito até chegar ali naquela cama respirando o agardável ar do encontro e da carne finalmente e você voltaria para sua torre e para eu para minha ilha mas dizem que nenhum homem é uma ilha e voltaríamos correndo e nos chocaríamos no caminho e terminaríamos sendo então o que sempre deveríamos ter sido desde o início todo o tempo.

apenas um do outro.



Escrito por Paulo G. Horn às 20h31
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FEIO

As pessoas passam por mim com passos largos, passos calmos, passos pesados ou leves, como os dos gatos que moram logo aqui ao lado e não me deixam em paz. Passam de cabeça baixa tentando de qualquer maneira me evitar. Atravessam a rua ao me ver no lado de fora, em frente ao portão, onde calmamente me aconchego sempre. São poucos os que não tem medo ou nojo de mim. Posso até contar em meus dedo sujos, saídos da minha perna sarnenta.

Concordo, aceito o fato. Sou feio. Muito. Ninguém teria o porque gostar de mim. Minha cara é medonha, com dentes tortos que saem da minha boca e me dão o aspecto de uma fera selvagem, de um javali quem sabe. Nos meus pelos as falhas são, de tão visíveis, mais minhas do que os próprios pelos. Os poucos que tenho são bagunçados, sempre para cima, ralos, mas ouriçados, e me fazem parecer um porco espinho.

Vivo na calçada, me alimentando da caridade dos que sentem pena da minha feiúra. Recebo um prato de comida aqui, umas sobras ali, bebo água da chuva, num potinho que fica perto da árvore, a céu aberto, para coletar as gotas que descem frias e rápidas, apressadas para chegar ao destino trágico e se esborracharem no chão como kamikazes.

Essas gotas acumuladas dentro da minha vasilha infelizmente não são o suficiente e, então bebo a água lamacenta das poças, no barro do terreno em construção ao lado. Antes de morar na calçada, em frente ao portão, eu vivia nessa construção. Era bom, tinha um teto para eu não me molhar com a chuva constante da cidade e eu podia ficar deitado no escuro sem ver o desprezo das pessoas.

Mas a construção, que se ergue a lentos milímetros, agora serve a outro propósito. Pelo mesmo fator que eu gostava dela, sua escuridão e silencioso isolamento, pessoas invadiram-na como antes eu tinha feito, e me expulsaram de lá. Agora, a construção é um reduto de drogados, entrando e saindo, deixando as marcas de suas alucinações, em seringas e pontas de cigarros espalhadas pelo chão.

O lugar fede a mijo e bosta. Os drogados cagam lá dentro, e não duvido que acabem por dormir em cima, quase que em simbiose.

Eu deito em minha calçada e espero. Espero por um prato de comida, por um pouco de água, um pouco de carinho, acima de tudo. O garoto da casa que moro em frente ao portão gosta de mim. Sempre vem falar comigo e me cumprimenta alegremente a cada entrada ou saída. Sinto realmente que gosta de mim. O amigo dele que mora aqui perto também gosta de mim. Os dois têm a sinceridade tão estampada nos gestos que é impossível não perceber.

Com os outros amigos do garoto tenho certo receio. Principalmente daquela garota que vem aqui sempre. Não sei o que é, mas não consigo relaxar perto dela. Já cheguei até a avançar nela. Nela e naquele outro de chapéu e guarda-chuva que me acordou.

Os passos me incomodam. Mas agora, o que mais me incomoda são os carros. Antigamente essa era uma rua calma, mas a modernidade assombrou esse pequeno bairro, e agora ele é visado, é famoso, abriga uma gigantesca arena que atrai muita gente, quartas e domingos. O asfalto me faz sentir falta da poeira do chão. Quando era de paralelepípedo, eu podia pelo menos fuçar a terra que os rodeava.

Agora minhas únicas atividades são, eventualmente correr atrás de alguns gatos sem nunca os alcançar e desviar dos carros que passam a toda a velocidade.

Então eu deito e espero. Espero por um prato de comida, por um pouco de água e um pouco de carinho, acima de tudo. Espero até o fim.



Escrito por Paulo G. Horn às 14h00
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Explicações

às pessoas que insistem em perambular por aqui:

aparentemente eu escrevo demais para o espaço que tenho

não é a primeira vez que meus textos são "tesourados" pelo limitador de caracteres

só que dessa vez eu não tive como editar. então:

LEIAM OS DOIS ÚLTIMOS TEXTOS COMO SE FOSSEM UM SÓ. O ÚLTIMO POSTADO (PRIMEIRO NA PÁGINA) É O COMEÇO E SEGUE COM O SEGUNDO NUM TEXTO SÓ

OBRIGADO! MENOS AO LIMITADOR DE IDÉIAS



Escrito por Paulo G. Horn às 22h34
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